segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Agustina Bessa-Luís

    A Agustina nasceu em 1922 e fez anos no dia 15 de Outubro. É uma das nossas maiores escritoras, e nada melhor do que citá-la para a homenagear.

   "Vida sem sobressalto, parada, mas também sem atritos e sem nada de inquietante. Era igual à de tantos morgados que, entre o rodovalho na brasa e um mau passo com uma criada, vão moendo a colheita do matrimónio sem muitos horrores a deixar na memória das coisas críveis. Só que em José Augusto se desenvolvia aquela neura tremendíssima que fez do caso incurável uma desgraça colectiva.
      Nos fins de Novembro, muito abatido, e quando os frios se faziam sentir com mais rigor no Lodeiro, pediu a Camilo que lhe alugasse uma casa na Foz. ["Uma das mais confortáveis casas do Passeio Alegre"]. Continuava  até a ter exigências que decerto lhe comprometiam a fortuna; mas para um doente com poucas probabilidades de socorro no processo do seu impedimento mental, não importava a ruína e impunha-se uma certa valorização narcísica. O seu estado de depressão agravou-se muito, com certeza comprometido ao casamento e à sua estrutura negativa como solução que o decepciona." ("Fanny Owen", 1979).

 
  "Há uma tendência nos povos que vivem à beira dos rios para serem possuídos por crenças obscuras, baseadas em provas hereditárias e profundamente enraizadas. Se consultarem os moradores do Porto, nove em cada dez tiveram um encontro com coisas indecifráveis e acreditam em formas sobrenaturais que habitam as casas e convivem mais ou menos pacificamente com as pessoas. É uma nostalgia das memórias tribais, possivelmente, mas o certo é que, impressão ou facto, as alucinações auditivas ou visuais eram frequentes e ninguém estava livre de as experimentar. O senhor Maciel, homem douto na sua espécie, dado a fantasias culturais e que tocava órgão eléctrico numa banda musical, tinha frequentes encontros com espíritos, e um deles, mais particular, costumava avisá-lo, tossindo ligeiramente, dos acontecimentos dramáticos que se iam dar na sua vida. Quando partiu uma perna, ao avançar às cegas dois degraus, como se alguém o empurrasse, tinha recebido dois avisos desse fantasma assobiador." ("Prazer e Glória", 1988).

  Dois excertos escolhidos, um pouco ao acaso, para servirem de aperitivo a futuros leitores da Agustina.


1 comentário:

  1. estou convicto que é um bom intróito... sem dúvida...

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