Ainda esticando a lógica literária que me levou a publicar excertos de Luis Sepúlveda e Gabriel García Márquez, refiro que, por cá, há uma escritora que eu encaixo na mesma família estilística. Se não me falha a memória, dela apenas li o fantástico "Insânia" de 1996. Falo, evidentemente, de Hélia Correia. Lembro-me de a ver, por vezes, nas salas de Teatro onde eu também ia, quando ainda assistia a essa Arte sublime. Que saudades tenho eu de ir ao Teatro, meu Deus! É melhor não pensar nisso, agora...
Este tema dos Dead Pirates pertence ao EP "Malevolent Melody" de 2010.
O vídeo é autoria de Mcbess & Simon.
The Dead Pirates - "Malevolent Melody" (EP) (2010)
"Jamais se abriu Talívio sobre o assunto. Pusera o seu empenho nas palavras e, atraiçoado, foi para as mãos que se virou. Achou refúgio num lagar que transformou numa oficina de carpintaria. E aplicou-se a lutar com a madeira, que, ao contrário de tudo o resto, era abundante, ainda que lassa e muito esquiva às ferramentas.
Na solidão moía os seus despeitos. Quem espreitasse, veria como a fúria dos pensamentos lhe escorria até aos dedos. Dizia-se que o vento, voltejando nas telhas descobertas, levantava o poder dos espíritos do vinho que, muitos anos antes, outro vento impregnara na própria construção. O carpinteiro não gostava de álcool, mas a intoxicação por ideais parecia semelhante à da bebida. Também ele começara por falar alto em público para depois, humilhado, se esconder." Hélia Correia, "Insânia", 1996
Por razões óbvias relacionadas com o tema de M.I.A. que publico no post anterior, aqui está o "Straight to Hell" dos grandes Clash! Tema que faz parte do álbum "Combat Rock" de 1982.
Vídeo realizado por Bernard Gourley.
Tema que faz parte do álbum "Kala" de 2007.
O excerto de Gabriel García Márquez que publico neste post, fez-me lembrar este tema delicioso de M.I.A.!
"Uma droga mais daninha do que as chamadas 'duras' introduziu-se na cultura nacional: o dinheiro fácil. Prosperou a ideia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que de nada serve aprender a ler e a escrever, que se vive melhor e mais seguro como delinquente do que como gente de bem. Em síntese: o estado de perversão social próprio de toda a guerra larvar." Gabriel García Márquez, "Notícia de um sequestro", 1996
Como referi o chileno Luis Sepúlveda nos posts anteriores, apetece-me transcrever excertos de um escritor que considero da mesma família literária. O colombiano Gabriel García Márquez fascinou-me por completo com o seu "Cem Anos de Solidão". Trata-se de uma das obras mais mágicas que li ao longo da minha vida de leitor. É um dos livros mais influentes da História da Literatura, e tal como Sepúlveda me faz lembrar um pouco García Márquez, existem um cem número de escritores que parecem ter ido beber à magia do colombiano.
Por causa do excerto que publico neste post, lembrei-me desta música dos Steppenwolf. Faz parte do álbum " The Second" de 1968.
"Úrsula tinha acabado de cumprir o seu repouso de quarenta dias quando chegaram os ciganos. Eram os mesmos saltimbancos e malabaristas que haviam trazido o gelo. Ao contrário da tribo de Mequíades, tinham demonstrado em pouco tempo que não eram arautos do progresso mas bufarinheiros de diversões. Mesmo quando trouxeram o gelo, não o anunciaram em função da sua utilidade para a vida dos homens mas como uma mera curiosidade de circo. Desta vez, entre muitos outros jogos de artifícios, traziam um tapete voador. Mas não o ofereceram como uma contribuição fundamental para o desenvolvimento do transporte, mas como um objecto de divertimento. Claro está que as pessoas desenterraram os seus últimos pedacinhos de ouro para usufruírem dum voo fugaz sobre as casas da aldeia. Amparados pela deliciosa impunidade da desordem colectiva, José Arcadio e Pilar viveram horas de desafogo. Foram dois namorados felizes entre a multidão, e chegaram até a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousado e profundo que a felicidade desaforada, mas momentânea, das suas noites secretas." Gabriel García Márquez, "Cem Anos de Solidão", 1967
Como publiquei no post anterior um texto de Luis Sepúlveda acerca do Papa Francisco, convém referir que os livros que li deste autor, me marcaram. Por exemplo em "Nome de Toureiro", é evidente a influência da sua própria vida, em tudo o que ele descreve. Ele pertenceu à Brigada Simon Bolívar, que lutou ao lado dos Sandinistas na Nicarágua. Essa Brigada é parte integrante da história fascinante de "Nome de Toureiro". Já escrevi sobre os Sandinistas num post antigo com música dos Censurados... Por isso não me vou repetir.
Dedico este tema de Kris Kristofferson a Luis Sepúlveda, porque ele me proporciona um universo literário mais rico e muito original. Tema que faz parte do álbum "Third World Warrior" de 1990.
"O velho Franz levou uns bons anos a quebrar a resistência da viúva e quando, por fim, numa curta noite de Verão, conseguiu ser aceite entre os seus lençóis, descobriram os dois que as suas vidas estavam excessivamente impregnadas de recordações que obrigam ao silêncio e que a única coisa que podiam fazer juntos era tentar construir recordações novas, limpas da infecção da distância e que, quando se conseguem, oferecem o mais cálido dos amparos. Como isso leva tempo, decidiram-se por uma relação entre gringo sozinho e governanta a viver fora, o que a mulher legitimava tratando-o invariavelmente por senhor." Luis Sepúlveda, "Nome de Toureiro", 1994.
"O Rosário, de Florence Barclay, continha amor, amor por todos os lados. As personagens sofriam e misturavam a sorte com os sofrimentos de uma maneira tão bela que se lhe embaciava a lupa de lágrimas.
A professora, não de todo de acordo com as suas preferências de leitor, permitiu-lhe que levasse o livro, e com ele regressou a El Idilio para o ler mil e uma vezes diante da janela, tal como se dispunha agora a fazer com os romances que o dentista lhe trouxera, livros que esperavam insinuantes e horizontais em cima da mesa alta, alheios à desordenada olhadela a um passado em que António José Bolívar Proaño preferia não pensar, deixando os poços da memória abertos, para os encher com as venturas e os tormentos de amores mais prolongados que o tempo." Luis Sepúlveda, "O Velho que Lia Romances de Amor", 1989.
Em continuação do post anterior, publicarei o texto prometido. Foi escrito por Luis Sepúlveda, um escritor que admiro e do qual li páginas que nunca mais me sairão da cabeça. Ao contrário dele, não sou ateu. Tenho Fé mas nunca tive Religião, e não vejo nenhum problema nisso!
Fiquem então com o texto de Luis Sepúlveda.
Jorge Mario Bergoglio, ou o padre que dava a comunhão a Videla
Tinha prometido a mim mesmo que não dedicaria nem um minuto à eleição do novo papa. Não sou católico, sou orgulhosamente ateu, e ao longo da minha vida tenho conhecido e conheço alguns padres que muito pouco têm a ver com O Vaticano & Company. Um deles chamou-se Gaspar García Laviana, um padre asturiano que pegou em armas na Nicarágua, deu a sua vida pelos pobres e caiu combatendo, com o posto de Comandante Guerrilheiro. Gaspar – Comandante Martín na história dos oprimidos – foi dos padres consequentes com o cristianismo, mas com um cristianismo que não está, que nunca esteve no Vaticano.
Tinha prometido a mim mesmo não dedicar nem um minuto ao assunto fuamata nera ou fumata bianca, o único fumo de que gosto e interessa é o dos Cohibas que fumo, mas diante da avalanche de histeria desencadeada é impossível permanecer indiferente. Para muitos, só o facto de o novo papa ser latino-americano já é uma garantia do regresso iminente aos evangelhos na sua expressão mais pura. Não é assim. A história sinistra da igreja católica, sobretudo a recente, não vai ser limpa por uma nacionalidade determinada. E se a questão era eleger um latino-americano, por que não Leo Messi, que é o mais próximo da perfeição divina?
Para outros, o facto de o novo papa "Pancho I" ser hispano-falante é quase um sinal de que a nossa língua é a língua dos anjos, que basta que fale espanhol para que a esquecida mensagem de justiça que teoricamente pronunciou o Nazareno se imponha em todas as bocas da Terra. Por favor! Diriam o mesmo se o novo papa fosse Rouco Varela ou qualquer outro taliban nacional católico e fascista da conferência episcopal espanhola?
E para outros, o facto de "Pancho I" ser jesuíta é quase um sinónimo do afastamento dos legionários de cristo, da Opus Dei, dos inquisidores da escola de Ratzinger. Ao que parece, com "Pancho I" a igreja recupera a inteligência e a sensibilidade de alguns, não de todos, os jesuítas.
Não devemos esquecer que há jesuítas e jesuítas. Admiro e respeito a memória de um jesuíta como Ignacio Ellacuría, assassinado em El Salvador, um padre que se arriscou, tal como fizera Gaspar García Laviana na Nicarágua, que deu a vida pelos pobres, pelos camponeses, pelos índios, pelos oprimidos, mas temo que Jorge Mario Bergoglio – "Pancho I" doravante – não é feito da mesma massa.
É público que jamais condenou ditadores argentinos, apesar de saber que na Argentina de Videla e dos seus sequazes se torturava, se assassinava, faziam-se desaparecer milhares de pessoas, roubavam-se os recém nascidos das prisioneiras grávidas, violavam-se todos os direitos e todos os mandamentos que, supostamente, regem a moral e a conduta dos católicos. Videla era católico e dos fanáticos, tal como Massera e todos os criminosos que usurparam o poder na Argentina. E sabendo-o, Jorge Mario Bergoglio – "Pancho I" doravante – não abriu a boca. Não pode alegar que não sabia, porque era o confessor e era quem dava a comunhão a Videla. Que lhe confessava o chefe dos torturadores?
Segundo uma extraordinária reportagem do jornalista argentino Horacio Verbitsky, publicada no Página12 em 1999, o cardeal Jorge Mario Bergoglio – "Pancho I" doravante – é culpado, por acção ou omissão, da detenção e desaparecimento de dois religiosos da sua própria ordem.
Nunca esclareceu estes factos, mas, curiosamente, quando o presidente Néstor Kirchner acabou com as odiosas leis de “obediência devida", com as amnistias aos criminosos e reabriu os julgamentos contra os piores criminosos da história argentina, Jorge Mario Bergoglio – "Pancho I" doravante – descobriu a pobreza e converteu-se no paladino do antikirchnerismo.
Na reportagem publicada pelo Página12, Horacio Verbitsky mostra dois documentos: um, que implica directamente Jorge Mario Bergoglio – "Pancho I" doravante – no desaparecimento desses dois padres, e outro, adulterado, modificado, amanhado, talvez pela mão do Espírito Santo.
Não há nada de que se alegrar. O conselho geral de accionistas do Vaticano & Company deixou tudo tal como estava.
Cartoon de Carlos Latuff que nos mostra o Papa Francisco com Videla ao pescoço...
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Tema que dá nome ao álbum de Rita Lee de 2012.
Como toda a gente já deve ter reparado, há Papa novo no Vaticano. O nome artístico é Francisco. Sucede a Bento XVI, um Papa em que toda a gente bateu, menos eu... Vi neste Bento, em pouco tempo de pontificado, uma certa tendência para assumir temas delicados, sempre postos à margem por quem se sentou na Cadeira de Pedro. Apesar de eu ter Fé, nunca tive Religião, e acho mesmo que não necessito de nenhuma, para poder continuar a ter a imensa Fé que tenho. Acredito em algo, é verdade, acredito que existe algo para além disto! Caramba, não há-de ser só esta vidinha estúpida que nós temos! Como sou de esquerda, já houve várias pessoas que me perguntaram se o ópio do povo de que Marx falava já não interessava. Se há uns anos atrás ainda suportava a questão que me colocavam, hoje em dia, quando me fazem essa pergunta, costumo sentir uma certa falta de ar desconfortável. Já não tenho pachorra para explicar, que cada pessoa deve pensar pela sua própria cabeça, e não ser apegada a interpretações doutrinárias tão puritanas! Devo ser o único espécime à face da Terra que simpatiza mais com Bento XVI, do que com João Paulo II. Aliás, nunca nutri qualquer simpatia ou respeito por João Paulo II (sempre o considerei um Papa medieval). Mas vejo-me a ler os livros de Ratzinger, um dia destes...
O delicioso "Xico" de Luísa Sobral é ilustrado por um vídeo um tanto ou quanto sombrio. Assim, no próximo post publicarei um texto sobre o Papa Francisco, escrito por alguém que eu admiro muito! E acreditem que o lado negro do vídeo tem bastante a ver com o texto que publicarei.
Tema que faz parte do álbum "The cherry on my cake" de 2011.